FUTEBOL É GUERRA

Rinus Michels (1928-2005), técnico da seleção holandesa de 1974, também conhecido como “o General”, disse uma frase que entrou para a história: “Futebol é guerra”. O que parece ser uma simples figura de linguagem dita no calor da emoção é na verdade uma analogia recorrente dentro de diversas línguas, entre elas a língua portuguesa. Dar combate, disparar uma bomba, estudar o adversário, mudar de tática e municiar o ataque, são apenas alguns exemplos de expressões linguísticas que manifestam a mesma metáfora conceitual declarada pelo General: Futebol é guerra!

1

Na visão clássica, as metáforas eram entendidas como um recurso de superfície, utilizadas quase que exclusivamente na poesia, como no famoso verso “o amor é fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões. De alguns anos para cá, no entanto, houve uma revolução no estudo das metáforas. A moderna Linguística Cognitiva hoje afirma que elas são conceituais, ou seja, diretamente relacionadas às funções de pensamento. Dessa forma, a metáfora não é mais vista como simples figura de linguagem, mas como parte essencial do nosso modo de pensar e sentir. Isso fica claro quando constatamos que ela está presente em todos os tipos de discurso, do cotidiano ao científico, e não apenas nas poesias. Diariamente dizemos “minha cabeça está explodindo”, “hoje estou quebrado” ou “como ele anda esquentadinho”, sem nem perceber que estamos metaforizando.

2

FUTEBOL É GUERRA é um desses exemplos de metáfora conceitual presente no nosso dia-a-dia. Ela faz uma projeção entre um domínio de origem (GUERRA) e um domínio alvo (FUTEBOL), e pode ter diversas realizações linguísticas como, por exemplo: “Nos primeiros três minutos da batalha”, “O atacante desferiu uma bomba” e “Técnico elogia tática do adversário”, frases comuns na vida de qualquer brasileiro que acompanha o futebol.

3

Na Copa do Mundo do Brasil de 2014, tivemos a oportunidade de ver muitas dessas metáforas nas vozes dos locutores esportivos e nas manchetes dos jornais. A guerra vai começar, mas lembrem-se: o campo de batalha começa  e acaba dentro do gramado e as únicas armas são o talento e a garra de grandes jogadores. A metáfora acaba aí. Aqui fora somos apenas torcedores, celebrando a paz.


4

4 pensamentos em “FUTEBOL É GUERRA”

    1. Que bom que gostou, Ramon! Aproveita e confere os outros textos. Tem muitas curiosidades bem legais. Um abraço da equipe do Museu da Língua Portuguesa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *